domingo, maio 15, 2005

O Jornal da Tarde

Como o subtítulo deste blog também faz referência a "assuntos do interesse das massas populares", e para demonstrar que posso ser um tótó da História Militar, mas ao menos sou um tótó ecléctico, segue-se a primeira tentativa de uma mensagem de interesse geral.

O tema é o Jornal da Tarde (todos os dias na RTP1 às 13:00).

A maior parte dos defeitos do Jornal da Tarde são comuns a todos os serviços informativos da TV portuguesa: directos sem qualquer razão de ser de locais onde já nada acontece (porque não gravá-los alguns minutos antes, e evitar os riscos do ad lib?), "jornalistas" que põem as respostas na boca dos entrevistados (porque raio os entrevistam sequer, então?), cobertura de irrelevâncias que nem aos jornais regionais interessam, e uma duração totalmente injustificada, na maior parte ocupada com questionários a transeuntes e a habitantes da parvalheira em causa, que invariavelmente descrevem os seus vizinhos psicopatas como "pessoas pacatas".

Mais valia noticiar o que fosse efectivamente notícia (o que, em Portugal, se despachava em cinco minutos) e depois anunciar: "Como em Portugal felizmente nunca se passa nada, vamos ocupar o resto do tempo deste telejornal com imagens de um gatinho a brincar com um novelo de lã/câmaras ocultas num balneário de mulheres algures na Escandinávia/uma selecção dos melhores golos do FC Porto nas últimas dez temporadas".

Mas o Jornal da Tarde inclui dois motivos de interesse adicionais:

Paula Rebelo, uma mulher aterradora com cara de ovelha, um penteado que esperaríamos ver num bar de alterne em Cabeceiras de Basto, voz cavernosa e pronúncia inenarrável ("Estes exames são fawitos") que quase todos os dias e infalivelmente ao fim de cerca de 20 minutos do noticiário, nos aparece com uma "reportagem" do Hospital de São João sobre algum revolucionário método de lavagem das fronhas das almofadas ou sobre as falhas do quadro de electricidade na Cirurgia II. Haja ou não haja algo que valha a pena reportar, oportuna ou inoportunamente, faça chuva ou faça sol, Paula Rebelo lá está. Enfim - suponho que seja mais fácil do que andar à procura da notícia.

Alberto Serra, mecânico de automóveis de formação, animador cultural nos tempos do PREC e antigo jornalista regional, que prodigaliza a respeito dos assuntos mais triviais tiradas líricas e trocadilhos patetas que até ao espectador provocarão embaraço, tudo transmitido com as ênfases e pausas dramáticas de um actor de grupo recreativo de província. Pelas suas próprias palavras: "Os factos apenas dão das pessoas o exterior, para lhes captar a alma é preciso a literatura e a poesia". Pensem nos justamente celebrados chavões de Gabriel Alves, multipliquem por dez mil e nem chegam perto.

Alberto Serra: um repórter para além da espuma dos discursos

Eu tenho fé na evolução da Humanidade. Espero que, daqui a cinco ou dez anos, tudo isto pareça penoso, ridículo, quase inacreditável.

Mas entretanto, vejam e desesperem.

Coming up next: Ingres como retratista; porque razão 95% da História Militar da Antiguidade Clássica é pura perda de tempo; Feira do Livro; Primeira Guerra Mundial: o revisionismo em marcha; reflexão sobre os introvertidos a propósito de uma passagem de Proust; fui aos subúrbios e sobrevivi para contar a história; novidades da Osprey Campaign Series; Giorgio de Chirico; paineleiros do futebol; demonstração de como as colunas de João Carlos Espada são afinal finos exemplos de sátira; and many, many more.

2 Comments:

Blogger Jó Carvalho said...

Caro amigo concordo em absoluto, mas não se esqueça de aí juntar aquelas reportagens acerca de assuntos de dúbio interesse que os tipos vão desencantar aos pontos mais remotos do globo. Já me dei ao trabalho de, por diversas vezes refira-se, ao ver uma notícia (repetida exaustivamente ao longo de todas as emissãoes) de um banal acidente de viação no Uzbequistão (ou mesmo aqui ao lado na vizinha Espanha) e depois de fazer um zapping pelos canais lá de fora, chego à conclusão de ninguém apanhou uma caixa destas. Grandes exclusivos? Será que a crise chegou às tv's cá do burgo e se compram as banalidades em exclusivo por serem a preço de saldo? Como se não bastasse a carnificina de cá!

quinta-feira, 16 junho, 2005  
Blogger Clibanarius said...

Um desastre ao menos é notícia.

Agora aquelas tretas sobre celebridades, ou as notícias do insólito (que há uns anos atrás eram sempre um polícia sinaleiro tailandês que dançava ou um cão que andava de skate; agora são um pouco mais sofisticadas), não.

E muito menos o são as queixas de má vizinhança ou de falta de estacionamento ou outras ninharias que enchem os últimos 40 minutos dos noticiários.

sábado, 25 junho, 2005  

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